12 de ago de 2010

A ÚLTIMA BALA

Meu nome é Romeu dos Anjos. Tenho trinta anos, e estou neste momento sentado na beira da cama de um quarto de motel na BR-116, segurando minha pistola Glock 25 na mão direita, enquanto mantenho com a esquerda o gravador diante da boca, para registrar o que aconteceu hoje. O motivo de eu estar alerta vai ficar claro daqui a pouco, à medida que eu for falando.

Aliás, acho que cabe aqui uma explicação: desde que comecei a vagar por esse mundo afora, me virando do jeito que podia, adquiri o hábito de falar em um gravador, contando o que me acontecia durante o dia; é mais ou menos como uma adolescente escrevendo em seu diário. Essa foi a maneira que encontrei de enfrentar a solidão da vida que escolhi. Sabe, é como se eu estivesse conversando com um velho amigo, a quem se pode contar tudo, sem reservas, sabendo que ele não vai julgar você pelo que está contando a ele. Não, não, meu pequeno gravador Sony é um ouvinte compreensivo e silencioso. Os únicos sons que emite são o estalar que as teclas produzem quando o ligo ou desligo. E sabe o que é mais engraçado? Eu nunca ouço o que gravo! No dia seguinte, simplesmente faço outra gravação por cima da anterior. Não é esquisito? Para mim, falar já é o suficiente. Parece que a fita magnética absorve não apenas a minha voz, mas também todo o veneno da minha existência. Sinto-me mais leve, mais relaxado depois de algum tempo falando no minúsculo microfone embutido. O fato de eu estar repassando parte da minha vida hoje, é que sinto um medo danado de morrer antes do final de semana acabar, e, se isso acontecer, quero deixar alguma coisa registrada nesta fita. Dessa vez não a apagarei. Quem sabe minha história não acabe virando um livro?

São 03:15 da madrugada de um sábado qualquer, e o silêncio é quase absoluto, agora que o casal do quarto ao lado finalmente se aquietou. Ouço o vento soprando lá fora, e vez ou outra o barulho de um galho se quebrando, ou uma lata caindo. Atrás de mim, dormindo profundamente está uma garota de dezesseis anos, com cabelos louros lisos, trajando um vestido de festa azul marinho. Seu nome é Daniele, e estava tremendamente assustada. E antes que alguém pense que sou algum tipo de pedófilo nojento, quero deixar bem claro que estar comigo é a única coisa que ainda mantém essa garota viva. Esvaziei um pente inteiro da Glock e uma parte do reserva para conseguir tirar-nos vivos daquela maldita emboscada que armaram. E o pior é que ainda não tenho a menor idéia dos responsáveis por aquela matança toda. O Comando Vermelho? O Primeiro Comando da Capital? Algum grupo de extermínio formado por policiais? Pergunto isso porque já trabalhei para todos eles. Caramba, que cabeça a minha, não é? Esqueci de mencionar: sou um assassino profissional, ou pistoleiro de aluguel, se preferirem. Meu negócio é matar gente por dinheiro, e não estou nem aí para ideologias políticas, ou qualquer merda desse tipo. Se me pagam bem, eu mato. É bem simples, na verdade. Só que eu tenho meu próprio código de ética, se é que posso chamar assim. Não mato crianças, por exemplo. Nem gente idosa. Ou religiosos. Eu sei como soa esse tipo de coisa, parece uma grande besteira, mas para mim é importante. Eu estabeleci uma linha demarcatória, e não a ultrapasso por dinheiro algum. Isso é um grande desapontamento para alguns potencias clientes, mas não estou nem aí. Não tenho grandes ambições materiais. Não tenho carro, nem residência fixa. Obviamente, também não tenho família. Esqueça aquela imagem que passam no cinema de assassinos profissionais morando em coberturas de luxo. Na vida real, o buraco é mais embaixo, como se diz por aí. O negócio é fazer o serviço e manter-se vivo para receber a grana. A partir daí, é pé na estrada; deslocar-se de um lugar para outro como um fantasma, senão “os caras” pegam você.

Faço isso há sete anos, e faço muito bem. Tenho uma ótima reputação entre as pessoas que precisam desse tipo de serviço. Quando a grana está acabando, eu as procuro, e sempre têm alguma coisa para mim. Até hoje, nunca deixei de fazer um serviço, e nem a Polícia Federal sabe quem sou. Um retrato falado andou circulando por aí alguns anos atrás, mas tanto o retrato como o nome passavam longe de minha verdadeira pessoa. Sou bom em matar, e sou melhor ainda em fugir e me esconder. Eu nunca dei bandeira, pelo menos não até ontem, quando cometi o maior erro de minha vida. O resultado desse erro? Eu sentado neste quarto, com a pirralha dormindo atrás de mim! Mas já vou chegar lá.

A Festa de Casamento

Eu disse que não tinha família, mas isso é uma meia verdade. Meus pais morreram quando eu era um pivete, deixando eu e minha irmã Raquel sozinhos no mundo, em um barraco sórdido da favela Heliópolis, em São Paulo. Eu devia ter uns três ou quatro anos, e minha irmã nove. Depois que ficamos órfãos, uns tios por parte de nossa mãe vieram nos buscar. Mas, como não tinham condição financeira muito melhor que a nossa, fomos separados. Ela ficou em São Paulo, e eu fui levado para uma cidadezinha no interior de Minas Gerais.

Raquel era mais do que uma irmã para mim; era como se fosse minha mãe. Ela é quem me alimentava, trocava minhas fraldas, brincava comigo e me punha para dormir. Eu amava Raquel com todo o meu coração de criança, e sofri muito quando nos separamos, mas acho que ela sofreu mais do que eu. Ela me amava de verdade, sabe, é uma coisa meio doida isso, mas nos dávamos muito bem.

Mamãe era empregada doméstica, e trabalhava o dia todo nas casas de classe média e alta da cidade. Meu pai viajava pelo país, pulando de um emprego a outro. Mal o reconhecíamos quando voltava para casa, após meses de ausência. Uma noite, quando os dois voltavam da igreja, foram pegos em um fogo cruzado entre policiais e traficantes na entrada da favela. Morreram ali mesmo.

Caso alguém esteja ouvindo esta fita, vai notar que minha fala não é assim tão ruim, e me expresso com facilidade. Não notou? Que grosseria! Sabe, eu podia ter sido escritor. A vida não é mesmo uma piada?

Apesar da vida difícil, e talvez por causa disso mesmo, eu me afundei nos livros. Estudar parecia para mim a única maneira de fugir da pobreza, pelo menos naquela época, então me dediquei ao máximo na escola. Tinha excelentes notas, e era querido por todos meus professores. Fui do ensino fundamental ao médio de forma meteórica, e quando atingi a maioridade já estudava Letras em uma faculdade pública. Formei-me entre os melhores da classe, e fui escolhido como orador da turma. Após a cerimônia, um dos professores bateu-me nas costas afetuosamente e sentenciou: - Você vai ter um futuro brilhante, rapaz!

(Riso)

Imagino o que ele diria se me visse agora!

E como um ex-favelado, graduado em letras e com um horizonte se abrindo à sua frente foi terminar seus dias (que expressão horrível) como pistoleiro de aluguel? Bom, para simplificar, eu me atreveria a dizer que a grana é boa e o trabalho é pouco, apesar de arriscadíssimo. Mas tem gente que ganha no mês um terço do que eu ganho em apenas um serviço, escalando torres, ou trabalhando em minas de carvão ou siderúrgicas, podendo morrer a qualquer momento! Então, acho que o risco compensa.

Mas chega de falar da minha vida! Vou ao que interessa... o acontecimento que custou a vida de Raquel, seu noivo e uns vinte ou trinta convidados de uma festa de casamento, com exceção, é claro, de mim e de Daniele.

Como não tenho um endereço fixo há anos, Raquel nunca pôde me escrever ou telefonar. Era sempre eu quem ligava para ela, ou enviava um cartão em seu aniversário ou no Natal. Nestes últimos sete anos, só nos vimos pessoalmente umas cinco ou seis vezes. Raquel havia se tornado uma mulher alta e esbelta, a pele morena como a minha, os cabelos tão negros quanto seus olhos, que me fitavam com o mesmo amor de que me lembro antes de nos separarem. Ela se formou em Secretariado, e logo em seu primeiro emprego apaixonou-se pelo patrão, Douglas, um empresário bem-sucedido do ramo imobiliário, vinte anos mais velho que ela. Ela me contou, feliz da vida, na última vez que nos vimos, que estavam de casamento marcado, após um ano de namoro.

- Você vai ao meu casamento, não é, Romeu?

- Claro que sim, Raquel. Mas tem certeza que...

- Douglas é um homem maravilhoso. Você vai gostar dele!

- Mas você o conhece tão pouco.

- Conheço o suficiente para amá-lo.

Movido pelo meu profundo amor por Raquel, resolvi fuçar a vida do tal Douglas, e até onde pude descobrir, o cara tinha ficha limpa. Senti-me mais aliviado, e ontem, menos de vinte e quatro horas atrás, levei Raquel até o altar, mais bonita e radiante do que nunca em seu vestido de noiva. Douglas nos aguardava sorridente, suas mechas grisalhas realçando seu porte elegante. Contagiado pela felicidade de minha irmã, eu sorria feito um bobo também. Após a cerimônia, os noivos, eu e mais alguns convidados seguiram para uma recepção no sítio do noivo em São Francisco Xavier, os faróis acesos e buzinando feito alucinados. Raquel ria e parecia incapaz de parar de abraçar e beijar Douglas. Eu seguia no carro logo atrás dos noivos por uma estradinha de terra. Foi quando notei algo estranho, e meus instintos de predador se aguçaram.

No lusco-fusco do dia que já se despedia atrás dos morros, notei uma picape Blazer preta parada ao longo da estrada, em um acesso quase todo tomado pelo mato. Não foi possível ver os ocupantes devido aos vidros totalmente negros. Naquele momento cogitei em deixar aquele alegre comboio e retornar, e foi aí que cometi um erro terrível: julgando-me paranóico, o que acaba acontecendo em minha profissão, ignorei o alerta que havia disparado em minha cabeça, e segui em frente. Quando transpusemos o portão da propriedade, estacionei o Gol alugado e abri o paletó cinza escuro também alugado para a ocasião. Soltei a fivela do coldre que mantinha a pistola Glock no lugar, e apalpei o bolso interno em busca do pente de balas reserva. Quando se trabalha com a morte, nunca se vai a lugar algum desarmado; essa sempre foi a minha regra básica. Fui até o portão, chequei a estrada e o mato ao redor, e nada. Dei-me por satisfeito. Como fui idiota!

O céu já se tornara negro, as luzes dispostas pelos jardins da propriedade se acenderam e a música estrondejou pelos alto-falantes. Uma seleção de dance music dos anos 70, bem ao gosto de Raquel. Os convidados começaram a sentar-se às mesas, crianças corriam de um lado para outro, garçonetes bem-alinhadas surgiram de repente, executando sua dança entre as pessoas. O murmúrio de vozes subira bastante para competir com o som. Raquel veio correndo me encontrar. Tinha despido o véu, a cauda e as luvas, e continuava linda. Naquele momento a força do amor que sentia por minha irmã pareceu desabar sobre mim... (Pausa)

- Você está maravilhosa. – eu disse.

- Obrigada, querido. Agora que eu casei, você vai me visitar mais vezes, não é?

- Bem, eu... é, acho que sim. – respondi meio sem jeito.

Raquel sorriu.

- Você, sempre cheio de segredinhos... desde criança você era assim, todo independente, metido a durão.

- Não sou metido a durão! – retruquei, rindo. Raquel era a única pessoa que me fazia rir com facilidade.

(Uma lágrima cai)

- Raquel! – uma voz feminina chamou. – Não vai jogar o buquê?

- Já vou! – ela respondeu. – Tenho que jogar o buquê para um bando de solteironas desesperadas. E você, não se atreva a ir embora de fininho, hã?

- Prometo. – retruquei. Não perderia essa festa por nada. Amo você, mana.

Raquel piscou, meio incrédula. Eu nunca fui do tipo que faz declarações de amor.

- Ah, Romeu, Romeu, meu irmão querido! – ela me abraçou apertado, me deu um beijo na bochecha e saiu correndo para os braços de um bando de moças que a esperavam, quase histéricas.

Quanto a mim, continuava com aquela sensação de que alguma coisa não ia bem, como se o cenário perfeito pudesse desmoronar a qualquer momento. Andava para lá e para cá, a gravata frouxa, sentindo o peso do coldre sob minha axila esquerda, tentando sondar discretamente os limites do lugar.

Nesse momento eu a vi passando por mim, falando ao celular. Registrei em um breve olhar os cabelos muito claros e o rosto de criança, e continuei minha ronda. Uma garçonete me ofereceu uma bebida. Não iria consumir álcool naquele momento, queria meus sentidos funcionando em nível máximo, mas peguei o copo suado da bandeja para não chamar muita atenção.

Um galho estalou em algum ponto à minha direita. Estaquei de cabeça baixa, passei o copo para a mão esquerda, e fechei os olhos. A música atrapalhava minha concentração, mas fiz o melhor que pude. Como sempre, deu certo.

Outro galho estalou, agora à minha esquerda, talvez a uns vinte metros de onde eu estava. Ouvi sons abafados, como passos sobre mato. Um arbusto farfalhou. Meu coração começou um louco galope dentro do peito, e a adrenalina inundou minha corrente sanguínea. Joguei o copo no chão e enfiei a mão dentro do paletó, envolvendo a coronha da pistola. Olhei para trás, por cima do ombro. A festa estava começando a esquentar; alguns convidados já se lançavam em uma pista de dança improvisada, os comes e bebes corriam soltos. Temi por Raquel, precisava avisá-la.

Comecei a recuar de costas para a cerca que delimitava a propriedade, ainda com a mão dentro do paletó. Meus olhos corriam de um lado a outro, procurando algo em que fixar. Ouvi mais estalos, e mais mato sendo pisoteado. Não tive dúvidas de que haveria um ataque a qualquer momento.

Olhei por sobre o ombro novamente para divisar minha irmã, e então senti o estômago congelar.

O som de uma arma sendo engatilhada chegou até mim!

Saquei a pistola, virei-me e comecei a correr. Gritei para que corressem, se abrigassem... então, o inferno se libertou.

Escondi-me atrás de uma palmeira real, no exato momento em que o ar se encheu com o matraquear de armas pesadas. As balas passaram zunindo raivosas por mim, e vi uma das caixas de som explodir. Em seguida uma senhora idosa foi atingida no peito e na cabeça, caindo de pernas abertas no gramado bem cuidado. Cadeiras, garrafas, enfeites e pessoas voavam aos pedaços. A violência do ataque me deixou aturdido por alguns instantes; nesse meio tempo – não mais que cinco ou seis segundos – contei doze pessoas caindo, inclusive crianças.

Rompi a paralisia, e, parcialmente coberto pela árvore joguei-me ao chão, fiz pontaria e pressionei o gatilho três vezes. Dois atiradores caíram com buracos fumegantes em suas testas. Fiz uma varredura visual, e constatei sete atiradores ao todo, fora os que eu havia liquidado. Dois deles concentraram o fogo sobre mim, dilacerando o tronco grosso da palmeira, enquanto os demais avançavam para os convidados, atirando, mas não a esmo, como pude observar. Pareciam escolher os alvos. Ocorreu-me que talvez estivessem procurando alguém.

Pensei por um instante em Raquel, se teria conseguido fugir. No instante seguinte, uma bala passou a milímetros de minha orelha esquerda. Hora de reagir.

Orientando-me pelo som dos disparos, dei a volta na palmeira e disparei quatro vezes. Atingi um dos atiradores no pescoço, e outro no tórax. Aproximei-me dos dois, que ainda respiravam, e terminei o serviço.

Abaixei-me para pegar o fuzil AR-15 de um deles. Nesse momento vi o vulto branco de Raquel caído no chão, seu vestido de noiva parecendo brilhar em contraste com a grama verde escura, e com as manchas de sangue que afloravam nele.

Cego de raiva empunhei o fuzil e avancei nos atiradores, que, por incrível que pareça, se revelaram amadores o bastante para dar as costas ao único convidado que estava resistindo!

Puxei o gatilho e segurei-o, sentindo o coice cadenciado da arma contra meu ombro direito, enquanto derrubava os assassinos de minha irmã. Uma arma maravilhosa, o AR-15. Em segundos, só restavam dois deles, mas a munição acabara. Os desgraçados haviam se jogado no chão, atrás dos corpos amontoados de suas vítimas. Quando meu fuzil silenciou, se ergueram para me alvejar. Lentos demais. Saquei novamente a Glock e esvaziei o pente.

Olhei em volta: eu era o único em pé, em meio a fumaça das armas e aos corpos que se espalhavam em todas as direções. Então notei um movimento com o canto do olho. Corri em direção à palmeira, certo de que não conseguiria chegar. Joguei-me pelos últimos dois metros, a tempo de evitar uma rajada letal. Rolei de lado, ao mesmo tempo em que retirava o pente reserva do bolso do paletó. Recarreguei a arma, puxei o ferrolho e esperei. Outra rajada atingiu a árvore, que continuava resistindo. Bendita palmeira!

Espiei rapidamente, e o atirador fugia pelos fundos da propriedade, arrastando pelo braço a garota loura que eu havia visto antes e olhando por cima do ombro, apontando desajeitadamente uma submetralhadora Uzi em minha direção. Fiz pontaria e atirei. Uma. Duas. Três vezes. Então meu alvo cambaleou, o sangue jorrando de três lugares diferentes, e caiu de cara no chão. A loura se desvencilhou de seu aperto e tentou correr, mas tropeçou e também caiu. Ainda fazendo pontaria no atirador aproximei-me, parando a alguns metros dele. Vi que estava gravemente ferido, mas vivo. Algo fácil de corrigir, pensei. Meti-lhe uma bala na nuca, ele estremeceu uma vez e deixou de respirar.

A garota gritava sem parar, os olhos arregalados, seus gritos saindo abafados entre os dedos com que tapava a boca. Olhava do corpo jazendo ao seu lado para mim, de novo para o corpo, e de novo para mim. Meus ouvidos zumbiam com o som dos disparos, de modo que minha tolerância a seus gritos era zero. Apontei-lhe a arma e mandei que se calasse, ou ia se juntar aos mortos. Tremendo e ofegante ela se calou, os olhos enormes no rosto infantil, debulhados de lágrimas.

- Quem... quem é v-você?

(Silêncio)

- Eu disse quem...

- Não interessa. Venha comigo. E bico fechado!

- P-para onde?

- Caralho, pare de fazer perguntas! Fique aí, se quiser.

(RAQUEL)

Caminhei apressadamente, evitando as poças de sangue e os corpos espalhados pelo chão, a garota andando atrás de mim, soltando um gritinho de horror a cada corpo que avistava. Em determinado momento pareceu-me que ela estava vomitando, mas não me voltei para conferir. Em minha mente só havia um nome, retumbando dolorosamente – Raquel!

Ela estava caída com parte do corpo debaixo da comprida mesa onde iria se sentar com o marido, comigo ao seu lado. Seus olhos estavam abertos, e um dos sapatos havia se soltado.

Raquel fora atingida várias vezes, e o lado direito de sua cabeça era uma ruína avermelhada. Ajoelhei-me, e delicadamente passei um braço por trás de sua cabeça, sentindo o estômago enjoar com a flacidez de seu pescoço. Puxei-a contra meu corpo, e abracei minha irmã adorada uma última vez. Não consegui me conter. Com o rosto colado ao dela, chorei e gritei, tentando absorver o choque daquilo tudo. Tentando aceitar que Raquel estava morta em meus braços.

Algum tempo depois, nem imagino quanto, levantei a cabeça, a visão ainda turva pelas lágrimas, e inspirei uma boa quantidade de ar. Soltei-o bem devagar, e enchi os pulmões de novo. Repeti o movimento por um ou dois minutos, e senti minha mente clarear um pouco. Deitei o corpo de Raquel no chão e enxuguei os olhos na manga do paletó. Olhei para trás. A garota loura estava parada a alguns passos de mim, as mãos cruzadas diante do corpo, os joelhos sujos, o cabelo desarrumado. Desviei o olhar, pensando no que faria em seguida, quando o toque de um celular me colocou de novo em alerta.

Perguntei a garota se era dela, e ela disse que não. Levantei-me e localizei o som. Enfiei a mão no bolso de um dos atiradores mortos, e peguei o aparelho. Olhei o display. A mensagem “Nikolay calling” brilhava.

Nikolay?

Quando aquele telefone parasse de chamar, mais gente seria enviada! Eu tinha que sair de lá o mais rápido possível.

Guardei o aparelho no bolso da calça, e quando procurava as chaves do Gol nos bolsos, uma mão pequena se fechou em torno de meu braço.

- Quem era aquela gente? Porque mataram todo mundo?

- Solte-me, garota. Tenho que sair daqui agora!

- Você vai me deixar sozinha aqui?

Os olhos acinzentados da garota me fitavam, suplicantes. Precisava pensar rápido, mas não conseguia. Por fim, fiz sinal para que ela me seguisse.

Talvez aquela menina tivesse algumas respostas, afinal de contas. Assumi o risco de levá-la comigo porque, em minha cabeça, já começava a arquitetar uma vingança contra aqueles que causaram a morte de Raquel.

Segurei a maçaneta do veículo e dei uma última olhada para trás, para Raquel. Queria tirá-la dali, mas era impossível. Dali a pouco mais criminosos chegariam ao local, ou talvez a polícia. Eu não podia permanecer nem mais um minuto ali.

Então, com o coração sangrando, dei um adeus silencioso a minha irmã, entrei no carro e parti, deixando uma parte de mim para sempre com ela. Ao meu lado, a garota que provavelmente era a causa de toda aquela merda, mesmo que não soubesse.

Confiro a hora outra vez. Exatamente 04:00 h. Estive falando por cerca de quarenta e cinco minutos. Daniele está acordando. Vou desligar por enquanto.

- Onde estamos?

- Isso faz diferença?

- Quero ir para casa!

- Se sair daqui agora, vai é para um cemitério.

- Você é policial?

- Não. Por que aquele homem tentou levar você?

- Não sei. Nunca o vi antes.

- Ele disse alguma coisa?

- Disse... mas não em português. Parecia estar raspando a garganta enquanto falava, não entendi nada!

- Estrangeiros... “Nikolay calling”...

- O que quer dizer isso?

- Ainda não sei.

- Vou ligar para os meus pais. Eles virão me buscar!

- Não seja tola. Largue esse celular. Quer ver seus pais mortos?

- Não! Então... então me deixe falar com eles. Dizer que estou bem.

- OK. Mas cuidado com as palavras. Aliás, qual o seu nome?

- Daniele. Daniele Galante. E o seu?

- Isso, garota, é algo que muita gente adoraria saber. Se quiser me chame de Thomas.

(Um minuto se passa)

- Caixa postal.

Em Fuga

Agora são 21:00 h de sábado. Tivemos um dia terrível, principalmente Daniele. Aproveitei para registrá-lo antes que o sono me domine de vez. Ela dorme profundamente em outra cama de hotel. Está esgotada física e emocionalmente, o que é perfeitamente compreensível nas atuais circunstâncias.

Saímos do primeiro motel às 06:00 h da manhã. Confiava que os bandidos não teriam visto nosso carro, o que se revelou mais tarde outro erro.

Assim que a locadora abriu liguei prorrogando o aluguel pro mais dois dias. Estávamos nos limites de São José dos Campos. Eu estava hospedado no César Inn, a poucos quilômetros de distância, e meu equipamento de trabalho estava dentro do quarto. Precisava resgatá-lo antes que nos localizassem. Dirigi para lá, atento a tudo ao nosso redor, procurando me antecipar ao inimigo. Em determinado momento achei que estávamos sendo seguidos, mas foi um alarme falso. Estacionei em frente ao hotel sem maiores problemas. O manobrista levou o carro, e eu e Daniele entramos no saguão, tomando a direção dos elevadores, seguidos por vários olhares. Infelizmente, a garota era bonita demais para passar desapercebida, algo que eu teria que resolver.

Entramos no elevador e pressionei o número 11. Daniele estava muito agitada. Procurei acalmá-la, sem muito sucesso.

Se alguém ouvir esta fita, pode se perguntar porque eu não a abandonei logo de uma vez. Uma parte de mim responderia que, se os assassinos a queriam, ela seria a isca perfeita para trazê-los até mim. E eu tinha contas a acertar com aqueles filhos da puta.

Outra parte, porém, diria que, depois de presenciar o assassinato de minha irmã, pude sentir pela primeira vez o que era estar na outra ponta da mira de uma arma, e, além do desejo de vingança, essa parte gritava incessantemente por expiação.

Entramos em meu quarto, e imediatamente abaixei-me e puxei uma pesada mala debaixo da cama. Meus instrumentos de trabalho, por assim dizer, estavam todos ali. Daniele me perguntou se podia tomar uma ducha. Respondi-lhe que tinha dez minutos no máximo, depois eu sairia dali, com ou sem ela. Sem fazer nenhum comentário, a garota entrou no banheiro, e um minuto depois ouvi a água escorrendo.

Abri a mala, expondo meus brinquedinhos: um binóculo infravermelho russo, minha outra Glock 25 no coldre, um revólver Taurus calibre .44 cano longo (comprei um depois de ler os sete volumes de “A Torre Negra”, de Stephen King. Me sinto o próprio Roland Deschains quando o empunho), vários pentes de munição, e meu xodó: um rifle de precisão de fabricação israelense com uma mira laser adaptada, uma verdadeira raridade; praticamente infalível.

Completando o conteúdo da mala uma caixa com 20 pares de luvas cirúrgicas, e uma faca de caça com uma lâmina de 20 centímetros de comprimento, dentro de uma bainha de couro.

Vesti o segundo coldre com a pistola, coloquei dois pentes reservas nos bolsos internos do paletó, e amarrei a faca em minha canela.

O som do chuveiro cessou. Enquanto aguardava a garota sair do banheiro, peguei um lenço e passei em todo lugar onde pudesse ter deixado impressões digitais.

Um minuto depois Daniele saiu com o vestido de festa sujo e amassado, e enxugando os cabelos. Não pude evitar registrar suas formas com um olhar rápido, o qual esperei que passaria desapercebido, mas não passou. Ela corou ligeiramente, e desviei os olhos para minha mala, que continuava aberta sobre a cama. Fechei-a com um estalo metálico duplo dos trincos de segurança. Peguei outra mala, esta bem menor que a primeira, onde trazia algumas mudas de roupa. Daniele fitava a cidade pela ampla janela do aposento, de costas para mim. Lembrei do efeito que sua figura causou nas pessoas no salão, e peguei o telefone. Disquei 0 e aguardei na linha. Uma voz aveludada de mulher recitou sua ladainha: “Recepção Amanda, em que posso ajudá-lo?” Perguntei se no hotel eles tinham uma loja de roupas. Tinham. Desfiei a lista do que precisava: um boné, um moletom, uma calça de abrigo e um par de tênis. Virei-me para Daniele e pedi seus números. Ela me falou e repassei à recepcionista. Amanda me prometeu que esses itens seriam entregues em meu quarto em vinte minutos no máximo. Perfeito.

Liguei a televisão e fiquei olhando para a tela onde as imagens se sucediam em um ritmo alucinado, sem prestar a mínima atenção. Era só um modo de passar o tempo. Exatamente dezoito minutos depois, um entregador trouxe as roupas e uma nota fiscal que assinei. Dei-lhe cinco reais de gorjeta, e ele só faltou sair saltitando. Mandei que Daniele as vestisse. Ela me fitou com aqueles olhos de um azul acinzentado muito bonito, e achei que iria protestar; mas ela simplesmente pegou as roupas e os tênis e voltou para o banheiro. Momentos depois ela voltou para o quarto, parecendo pronta para fazer um Cooper matinal. Aprovei o novo visual, e torci para que fosse o suficiente. Lembrei daqueles olhos em tom de cinza, e entreguei-lhe um par de óculos escuros. Ela os colocou com uma careta, como quem diz: “Ainda não está bom?”

Deixamos o quarto, eu na frente arrastando meu arsenal particular sobre rodinhas, e ela alguns metros atrás, levando minha mala de roupas. Todo o meu mundo em duas malas apenas. Isso me pareceu um bocado deprimente, pela primeira vez em toda minha vida.

Quando a porta do elevador se abriu no térreo, senti meu corpo tenso e meus sentidos aguçados mais uma vez. Por precaução mantive minha mão dentro do paletó, os dedos suados fechados em torno da coronha dura e fria da Glock. Constatei, satisfeito que havia conseguido o que queria: nenhum pescoço se torceu para olhar a garota. Queria sair dali o mais rápido possível, entocar-nos em algum lugar seguro, e pensar nos próximos passos.

Caminhamos até o balcão, e enquanto a recepcionista (Joyce, não a Amanda) fazia meu check-out, eu olhava várias vezes sobre o ombro, a mão direita ainda repousada na coronha da pistola, só saindo dali para pagar a conta (em dinheiro, of course, não rastreável, baby). Assinei a nota com o nome falso com que havia me hospedado, dei meu melhor sorriso de canastrão para a moça do balcão, e praticamente arrastei Daniele do saguão.

Alguns minutos depois estávamos de volta à BR-116, na pista em sentido Rio-São Paulo, rodando a confortáveis 90 quilômetros por hora. Um turbilhão de pensamentos se agitava em minha cabeça. Havia muitos espaços vazios a preencher naquela história, por assim dizer.

- Daniele, o que seu pai faz? Ele é rico?

- Não. Acho que pode nos chamar de classe média. Temos uma boa casa, um bom carro, mas sem exageros. Papai é engenheiro na Embraer.

- E sua mãe?

- Psicóloga. Tem um consultório no centro.

- Isso não faz sentido.

- Como assim?

- Veja bem: um bando com armamento pesado invade uma festa de casamento, mata todo mundo e tenta levar uma garota loura de uns quinze anos...

- Tenho dezesseis.

- OK, dezesseis. A garota em questão é filha de um engenheiro e de uma psicóloga. Os pais não são ricos para justificar um seqüestro, nem estão envolvidos em assuntos secretos do governo, por assim dizer. Estou certo?

- A-acho que sim. Ouça, você poderia me levar até meus pais e...

- Fora de cogitação por enquanto.

- E se aqueles bandidos foram atrás deles (ela começa a chorar)?

- Nesse caso, já terão ido a essa altura, não acha?

(Soluços)

- Seu desgraçado! Eu q-quero a minha mãe!

- E se eles estiverem de tocaia em sua casa? Iríamos direto para os braços deles.

Enquanto eu tentava entender por que queriam seqüestrar Daniele, notei pela primeira vez um veículo grande – parecia outra Blazer – no retrovisor, a uns cem metros atrás de nosso carro, talvez menos. E atrás dela, uma outra, idêntica – preta, com os vidros espelhados – a pouca distância. Não restava dúvida de que haviam nos descoberto.

Um minuto atrás eu estava inclinado a pegar a saída para a Rodovia Dom Pedro e seguir até Campinas, ou direto até Limeira, mas decidi que uma estrada mais movimentada com a BR-116 seria mais segura em caso de uma perseguição.

As duas Blazer nos seguiram por vários quilômetros, sempre mantendo a mesma distância. Procurei manter o Gol entre caminhões, rodando a maior parte do tempo pela faixa da direita. A estratégia funcionou até chegarmos nos limites de Santa Isabel. Ali a rodovia começa um sobe e desce de montanha-russa, e os caminhões diminuem muito sua velocidade, tornando impossível manter-se entre eles. Acelerei o carrinho até cento e dez – maldito motor 1.0 – e nossos perseguidores fizeram o mesmo. No segundo declive o primeiro nos ultrapassou, voltando para a faixa da direita em seguida. Fui obrigado a frear, reduzindo para 60. O segundo emparelhou com nosso carro, aproveitando-se da pista momentaneamente limpa. O vidro do lado do carona desceu. Um sujeito careca como uma bola de bilhar, de óculos escuros e bigode olhou para mim. Ergueu uma pistola – uma Beretta, meu olho treinado registrou – e gesticulou com ela, apontando para frente. O gesto era claro – Siga-nos – e não deixava muitas opções. Resolvi arriscar uma delas, por mais radical que fosse. Quando o veículo começou a desacelerar para reassumir sua posição atrás do nosso, saquei as duas Glock e gritei para Daniele agarrar o volante. Ela piscou, confusa, e hesitou por um instante, mas fez o que eu mandei. Com o polegar da mão direita soltei a trava do cinto de segurança, e no melhor estilo “Jason Statham” debrucei-me na janela até a cintura e fiz chover chumbo quente sobre o pára-brisa, a grade do motor e os pneus da Blazer. O carona chegou a disparar de volta, e uma bala passou zunindo pela minha orelha esquerda, mas a essa altura seu veículo já havia saído da estrada aos trombolhões, o motorista tentando desesperadamente controlá-lo, até se chocar com um barranco e capotar várias vezes. Milagrosamente nenhum outro veículo vinha descendo a rodovia naquele momento.

O veículo da frente tentou nos fechar, mais retomei o volante e afundei o acelerador até o piso. O Gol deu uma arrancada, e joguei-o com tudo em cima da Blazer. Daniele gritou. Houve um estrondo de metal e vidro se espatifando, e o carro deles também saiu da estrada, desaparecendo numa vala. Atingiu o fundo e explodiu. Tudo aconteceu muito rápido. Dei uma rápida olhada sobre o ombro direito, e vi chamas e fumaça negra subirem em rolos em direção ao céu claro e muito azul. Daniele chorava e tapava a boca com as duas mãos. Senti pena dela. Contrariando totalmente meu bom senso, disse-lhe que a levaria para seus pais, desde que jogassem as malas no carro e desaparecessem do estado por um bom tempo. Talvez para sempre. Lágrimas de gratidão e alívio jorraram daqueles belos olhos. Senti um nó na garganta, algo que não sentia desde que me separaram de Raquel.

Entrei no primeiro retorno que encontramos, e seguimos em direção de São José dos Campos. Passamos pelo local do confronto, e a confusão já estava se formando. Trânsito parado, curiosos se amontoando – alguns tirando fotos! – gente falando ao celular. Cristo! Passamos zunindo a mais de cento e vinte por hora. O tempo parecia se estreitar. Se eles tinham conseguido localizar nosso carro uma vez, não demoraria muito para localizá-lo uma segunda. Além do mais, a lateral estraçalhada logo chamaria atenção da Polícia. Hora de trocar de condução, baby.

Já nos limites de Jacareí avistei uma inocente Zafira estacionada no pátio de um posto de gasolina, no fim de uma fila de carros. Vidros insufilmados. Perfeita. Estacionei ao lado dela, abri o porta-malas do Gol e retirei as malas. Utilizando minhas habilidades de arrombador de carros, em dois minutos estávamos rodando novamente. Para nossa sorte, o dono nem sequer havia instalado um alarme. Calculei que teríamos pelo menos duas horas de tráfego livre, o suficiente para deixar Daniele com os pais e “cair no mato”, como se diz.

Daniele vivia em uma bonita casa no Jardim Esplanada. Passei em frente ao portão duas vezes, lentamente, verificando as janelas. Não notei nenhum movimento. Daniele tinha os olhos arregalados e respirava pesadamente. Parecia prestes a saltar do carro e derrubar o portão no peito. Estacionei a minivan do lado oposto da rua, e substituí os pentes das pistolas. Entramos juntos, falei para a garota, e eu fico com vocês até que se mandem. E você nunca mais me verá. Ela concordou, ainda com aquela expressão maníaca no rosto. Não a culpei.

Chegamos ao interfone ao lado do portão social. Ela chamou uma. Duas vezes. Nada. Tentou o óbvio, ou seja, girar a maçaneta do portãozinho, e ele abriu. Ela olhou para mim, os olhos mais arregalados ainda. Percebi que alguma coisa estava errada. Meus instintos gritavam dentro de minha cabeça para não fazer aquilo, que cairíamos em uma armadilha, mas aquela garota amolecera meu coração. Mesmo sabendo que sem ela dificilmente chegaria aos assassinos de minha irmã, queria vê-la em segurança o quanto antes. Então entramos. Cruzamos o jardim, eu com uma das pistolas ao longo do corpo, sempre de olho nas janelas. A porta da frente estava entreaberta. Outro mau sinal. Daniele perdeu o controle e correu para dentro. Gritei para que esperasse. Tarde demais. Entrei na sala e a vi subindo as escadas, gritando pela mãe. Saquei a outra pistola, rezando para que os vizinhos da família fossem surdos, e subi atrás dela, esperando a qualquer momento...

Parei no penúltimo degrau, apontei as armas para a direita, depois para esquerda, e me convenci de que a barra estava limpa. Daniele, por sua vez, estava parada à porta de um cômodo, uma das mãos apoiando-se no batente, a outra tapando a boca. Seus olhos estavam arregalados, e ele respirava com dificuldade. Caminhei até ela, e olhei para dentro do cômodo. Um quarto de casal. Totalmente revirado, com sinais de luta. Mandei que ela ficasse atrás de mim, e entrei no quarto. Chequei debaixo da cama. Dentro do banheiro. Até dentro do closet. Nada. Então me virei para Daniele e a vi com um papel nas mãos – uma folha comum, parecendo arrancada de uma agenda. Ela correu os olhos pela folha várias vezes, e seu lábio inferior começou a tremer. Lágrimas desceram por seu rosto. Ela sentou-se na beirada da cama, e escondendo o rosto nas mãos começou a chorar. Era um choro daqueles de cortar o coração. Baixo, porém profundo, entrecortado de soluços. Um pensamento repulsivo passou por minha mente: quantas viúvas eu fiz chorar daquele jeito ao longo de meus anos de matador?

Sentei-me ao seu lado, passei o braço por seus ombros e a trouxe para perto de mim. Ela não ofereceu resistência. Afundou o rosto em meu ombro e continuou a chorar. Eu podia sentir o contato de sua pele febril por cima de meu paletó. Delicadamente retirei o papel de sua mão, e o li. Era um bilhete de resgate, curto e grosso, que dizia o seguinte:

Entregue a menina ou os pais morrem.

Logo abaixo um endereço e o horário: Meia-noite de hoje. Que romântico. E original também.

Abracei Daniele mais forte e esperei pacientemente que ela se recompusesse. Sabia que precisávamos fugir daquela casa imediatamente, mas concedi a ela esse tempo. Alguns minutos depois, estávamos rodando novamente. Devido ao risco de identificarem o veículo roubado, sugeri que o abandonássemos. Seguiríamos a pé até um hotel. Daniele concordou, meneando a cabeça. Parecia anestesiada. Eu a compreendia perfeitamente.

Olho para Daniele. Quando ela dorme parece ter onze ou doze anos, ao invés de dezesseis. Agora são vinte e uma horas e vinte e cinco minutos. Gostaria de tomar um bom banho quente, me jogar na cama e dormir até a noite seguinte, mas há providências a tomar. Daniele irá ao encontro de hoje, mas os seqüestradores de seus pais terão uma surpresa nada agradável. Eu estarei lá para me certificar disso.

Vou desligar. O tempo está contra nós agora.

Acerto de contas

Sei que é arriscado falar enquanto estou de tocaia, mas preciso registrar isso. Pode ser que eu saia vivo daqui, pode ser que não. De qualquer forma, os dados foram lançados. Os jogadores fazem suas últimas apostas, agora.

De onde estou, sobre uma pilha de caixas apodrecida em um depósito alfandegário desativado (o cúmulo da originalidade, meu Deus!) e imerso em sombras, tenho uma visão quase total do local. A cerca de oito metros abaixo e vinte metros a frente de onde estou, vejo a garota de cabelos louros e vestido de festa azul marinho, andando de um lado para outro, impaciente. Nada se move, nem mesmo um rato atrás de um lanchinho noturno. Eu acomodo melhor meu rifle israelense no ombro, confiro mais uma vez a mira, e espero.

A garota consulta o relógio, claramente irritada.

Demorou menos do que eu esperava para convencê-la. E espero sinceramente que ela saia ilesa desse encontro. Mas não vou me preocupar com isso agora. O que me importa agora é vingar Raquel. Os motivos que movem esses malucos não me importam mais. Eu quero sangue. Muito sangue. E eles vão me dar o que eu quero, não importa o preço. A vida da garota lá embaixo, ou mesmo a minha.

Não foi difícil encontrar o lugar. Fica a apenas três quilômetros do hotel onde me hospedei com Daniele. Uma feliz coincidência.

Fecho os olhos e vejo o rosto de Raquel flutuar diante do meu. Lembro de suas últimas palavras para mim, com a clareza de um sino de igreja: “Ah, Romeu, Romeu, meu irmão querido”. Uma lágrima escorre por meu rosto – apenas uma, e então ouço o ruído de um motor se aproximando, seguido por mais outro. Dois veículos. No mínimo oito caras maus. OK. Venham, seus filhos da puta. Tenho balas para todo mundo!

Réquiem

Está difícil falar agora. Meus pulmões ardem, e a dor nas costelas fraturadas é excruciante. Porém, nunca fui homem de deixar um negócio inacabado. E este é, como eu temia, o meu último negócio antes das luzes se apagarem de vez.

(Tosse)

Minha previsão estava certa. Ao meu redor jazem os corpos de oito homens. Consegui abater todos, mas paguei um preço alto: fui atingido várias vezes: nas costelas, na perna esquerda e no estômago. Cara, como isso dói! O piso onde me encontro parece um estudo em vermelho.

Olho para minha esquerda, e vejo o corpo da garota loura, caída, as pernas esparramadas, um pé descalço e a cabeça arrebentada por um tiro de escopeta. Os miolos dela bateram na parede logo atrás. Pobre garota!

Em minha mente recordo a conversa que tivemos quando a abordei “fazendo ponto” na Praça Afonso Pena, algumas horas atrás...

- Quanto você quer me pagar?

- Quinhentos. Pela noite toda.

- Demorou, amor. E vai ser onde? No seu apê?

- Eu vou te levar lá. Mas antes quero que faça uma coisa para mim.

- Hummm, é algum tipo de fantasia, é?

- Entre no carro. Vou explicar o que eu quero que você faça.

Não foi difícil encontrar uma prostituta loura e com o tipo físico de Daniele. Agora me ocorre que não perguntei o nome dela. Eu a contratei e a convenci de que iria participar de uma brincadeirinha entre amigos. Funcionou perfeitamente. Quando o careca alto de óculos saiu do carro e a viu, ficou fora de si.

Daniele! Por um instante me esqueci dela! Movo-me com dificuldade, a dor me espetando o corpo em vários lugares. Como ela está?

Ah. Continua desacordada.

(...)

Merda... apaguei por alguns instantes... acho que não consigo chegar até Daniele. Preciso... preciso saber... se ela.. está...

(Respiração ofegante. Um baque. Outro.)

Está viva. Ótimo. Mas tem um belo ferimento na cabeça. Cortesia do “Doutor Hollywood” caído mais adiante. O cabelo sobre a têmpora esquerda está empapado de sangue, mas sua respiração é normal. Isso é... bom.

(...)

Merda... mer... (...)

Não sei por quanto tempo apaguei desta vez. Estou com frio. Mau sinal. As lembranças de tudo que aconteceu estão nítidas, mas falar está cada vez mais difícil...

Os dois Ômega pretos com vidros espelhados estacionam no meio do pátio empoeirado, flanqueando a garota. Ela se encolhe, e leva a mão à garganta. As portas se abrem quase que ao mesmo tempo, e os homens saltam de armas na mão, olhando para todos os lados, à procura de algo nas sombras que dominam o ambiente.

Eu sou esse algo.

Um homem alto, totalmente careca e de óculos desce do lado do carona de um dos carros. Aproxima-se da garota, esfregando as mãos e sorrindo feito um lunático.

- Finalmente. – ele diz, com um sotaque carregado. Alemão ou russo, não dá para dizer. – O momento chegou. E depois: - Você e seu amiguinho nos deram um bocado de trabalho, minha querida. Aliás, onde está ele?

A prostituta fica muda. Olha de um rosto amedrontador para outro sem parar. O careca se aproxima até a distância de um beijo. Graças à má iluminação do lugar, ele ainda não reconheceu a farsa, mas isso não vai durar muito tempo.

Eu faço mira na testa do miserável. Vai ser o primeiro, decido.

- Não quer falar, hein? – o careca diz. – Não tem problema. Teremos tempo para conversar mais tarde. Muito, muito tempo.

Meu dedo pressiona o gatilho levemente. Quase no ponto

- Você nem desconfia, minha princesa, mas você é a mais importante experiência científica deste século. De todos os séculos.

Súbito mudo de idéia e afrouxo o dedo. Preciso ouvir mais. Tentar entender.

Então a garota fala, e ferra com tudo.

- Do que cê tá falando, tio? Tá maluco? Quem é esse povo todo aí?

O homem a fita gravemente; vincos de tensão surgem em sua testa ampla e oleosa.

- O morenão me contratou, me fez vestir essa roupa e disse que ia rolar uma festa de arromba aqui. Agora chega esse bando de gente armada e...

O careca a agarra pelos ombros, com força. Ela grita. Ele a arrasta para frente das luzes dos faróis. Seus olhos se arregalam e a boca retorce para baixo, numa expressão de perplexidade e raiva.

Principalmente raiva.

- QUEM É VOCÊ? Ele a esbofeteia. – ONDE ESTÁ A GAROTA?

Foi a conta. O primeiro tiro estraçalha o ombro esquerdo do cara. Isso vai neutralizá-lo por algum tempo, mantendo-o vivo. Para responder algumas perguntas, caso eu tenha a chance de fazê-las.

Os capangas me localizam no instante seguinte, e começa a fuzilaria.

Sacrificando a precisão em favor da velocidade, acerto um, dois, três deles. Um tiro passa rente a minha cabeça, arrancando um pedaço da orelha. Não sinto absolutamente nada, e continuo atirando. O quarto cai morto. Depois mais um. Só faltam três, e é aí que a pilha de caixas onde estou desmorona. Caio no chão duro de cimento, e sinto uma dor horrível no joelho direito. Fraturado, com certeza. Arrasto-me para trás de outra pilha, atirando a esmo. Vejo a prostituta correndo aos berros, e vejo também o momento em que é atingida, sua cabeça transformada em um destroço sangrento. Sobraram só dois deles atirando. O som de uma automática enche o ambiente. Dois buracos sangrentos aparecem em minha perna esquerda. Grito de dor e aperto o gatilho do rifle. Claque. Vazio. Saco o revólver .44 e faço pontaria, minha perna latejando de forma alucinante. BANG. O cara que me acertou cai para trás com um tiro que faz o seu rosto desaparecer. Atiro novamente, errando o outro capanga em pé, que revida duas vezes. Um tiro acerta de raspão minhas costelas do lado esquerdo. Alguns centímetros para o lado e seria bem no coração. O seguinte me pega no estômago, ao lado do umbigo. Caio de lado no chão e me finjo de morto, o revólver ainda firme em minha mão. Minha respiração se torna borbulhante, o sangue inundando minhas vias aéreas. Meu corpo é pura agonia, e só consigo me manter acordado pensando em Raquel. O canalha se aproxima, a arma abaixada ao lado do corpo. Esse foi seu erro. Ergo o cano fumegante em sua direção e disparo, porém sem muita mira. O tiro acerta seu cotovelo, separando-o do braço. Ele dá um berro de surpresa e dor, e se vira para correr. Dois tiros nas costas encerram o assunto.

Usando toda a força de vontade que me resta eu me levanto. Puxo o ar aos trancos agora, fazendo um enorme esforço para respirar. Olho na direção do careca de óculos, e para meu espanto ele está de pé, apontando uma arma para... Daniele!

- Solte-a. – eu digo, apontando o revólver para ele. O maldito puxa a garota pelo cabelo e encosta o rosto dela no dele. Ela chora, seus olhos muito azuis embaçados pelas lágrimas, suplicando para mim. Seus lábios formam o nome que dei para ela – Thomas! Amaldiçoo minha ingenuidade. Eu deveria saber que ela não se contentaria em ficar no hotel esperando o desfecho disto. Afinal, era a vida de seus pais.

- Solte-a, eu estou mandando, seu bosta!

O careca ri, e fala alguma coisa em um idioma que eu não entendo.

- Por que? – eu mudo o rumo da conversa. Faz efeito. Ele pisca duas vezes, parecendo perplexo. Depois ri como um demônio, e começa a falar naquele sotaque carregado:

- Porque esta garota (a palavra sai como “garrotan”) tem um valor inestimável para nossa organização. Ela é a comprovação da superioridade da tecnologia russa!

- Do que você está falando, seu veado? Desembuche, vamos!

- Esta garota (garrotan) é o primeiro clone humano bem-sucedido da história da humanidade! Nós a desenvolvemos (no momento eu estava me lixando para quem quer que fosse “nós”). Ela pertence a nós, desde que nasceu!

- O-onde estão meus pais? – Daniele pergunta, a voz trêmula. – Você disse que os libertaria se...

- Eles estão mortos, minha querida (ao ouvir isso, Daniele inspira o ar bruscamente, num soluço sufocado). Mas não se preocupe. Eles eram apenas seus pais adotivos. Eu, Doutor Nykolai Petrovich sou seu verdadeiro pai! Eu a criei!

- Já chega dessa besteira. – falo, o dedo aumentando a pressão no gatilho. – Solte-a agora! Em resposta o russo puxa o cão da arma para trás, pressionando-a mais fundo no queixo da garota. Ela geme, e recomeça a chorar.

- Thomas! - ela implora. – Me ajude!

- Você tem constantes dores de cabeça, não é, meu bem? – pergunta o tal doutor, com o rosto ainda colado no dela.

Daniele parece surpresa.

- Como... como sabe disso? – ela pergunta.

- Oh, nós a acompanhamos. Eu tive acesso a todos os seus exames. Devo dizer que suas ondas cerebrais vêm desenvolvendo um padrão muito interessante, meu bem. Muito, muito incomum. Provavelmente resultado das drogas especiais que ministramos na mulher da qual retiramos as células usadas para... fabricar você, doçura.

O rosto de Daniele subitamente se contrai, numa expressão de puro ódio. Num gesto de fúria cega ela agarra o cano da pistola e o afasta de seu queixo; no instante seguinte ela crava os dentes na mão do Doutor, bem na junção do polegar com o pulso. Ouço um som de osso se partindo e o sangue esguicha. O homem grita de dor e a empurra com brutalidade. Ela se desequilibra e bate a cabeça com força em uma pilastra de metal, desmaiando.

Antes que ela atinja o chão meu dedo pressiona o gatilho, e a última bala no tambor explode a cabeça doentia do Doutor Nykolai, espalhando sangue, ossos e miolos para todos os lados.

- Raquel! – eu grito. – Sou Roland Deschains agora! Eu disparei a última bala!

- Eu sou o último pistoleiro!

(Sons de engasgo)

- Terminou. A história terminou. Posso... morrer... enfim.

(Um baque. Silêncio. Uma voz feminina.)

- Romeu.

(...)

- Romeu. Meu irmão querido!

- Ra... quel?

- Sim. Vim buscá-lo. Dê-me sua mão.

- Para... que? Onde... vamos?

- Recomeçar, meu amor. Recomeçar.

(CLIQUE)

- Essa última parte é que me dá arrepios. – diz o homem gordo de bigode, sentado atrás de sua mesa. Ele se recosta e a cadeira geme, protestando contra o peso.

- Bah, deve ser brincadeira de algum maluco. Quem vai acreditar numa história dessas? – responde-lhe outro homem, ligeiramente calvo, de cavanhaque bem aparado, sentado do outro lado da mesma mesa.

- Os corpos estão aí para provar. – argumenta o gordo. – Você mesmo esteve lá comigo.

- Sim, isso é uma coisa, mas... essa papagaiada toda de experiência científica, clonagem, drogas para o cérebro... isso não faz nenhum sentido! – o homem calvo tira um maço de cigarros do bolso e faz menção de acender um. O gordo o repreende.

- Você não sabe ler? – diz ele, apontando para um cartaz de “É proibido fumar neste local.”, com um mapa do Estado de São Paulo estilizado desenhado logo abaixo.

- Desculpe Delegado. – diz o calvo, guardando o maço e o isqueiro de volta no bolso. – Força do hábito.

- Um péssimo hábito, eu diria. Devia fazer como eu. Parei de fumar a dois meses, com ajuda daqueles emplastros. Sinto-me ótimo.

- Bom para o senhor. Mas eu já tentei, e não consegui passar mais do que oito horas sem um cigarro. Aliás, aqui todos os investigadores fumam, caso não tenha percebido.

- Deixe de ser abusado, Carlão. – diz o gordo. Você está é ferrado, isso sim. Você e todos os fumantes deste 19º Distrito.

- Falou a voz da sabedoria. – retruca o outro, e ambos riem.

A porta se abre, e uma moça magra, de olhos cansados enfia a cabeça dentro da sala.

- Não se esqueça que o senhor tem audiência as quatro, Delegado Paixão.

- Obrigado, Rita. O que eu faria sem você, hein?

A mulher dá um meio sorriso e se retira. O Delegado consulta o relógio.

- Puta merda. Já são vinte para as quatro. Tenho que sair. Depois continuamos esse assunto. Isso ainda vai dar muito pano para manga.

- Pode crer. – responde o investigador Carlos Alberto da Silva, ou “Carlão”.

- Por falar nisso, encontramos a garota? A tal Daniele de que ele fala na fita?

- Negativo. Ela evaporou como fumaça.

- Tome a frente dessa busca para mim, sim? Encontrá-la é muito importante. Vai preencher alguns espaços vazios nessa história.

Carlão sorri, satisfeito.

- Deixa comigo, doutor.

O delegado lhe dá dois tapinhas no ombro.

- Eu confio em você.

Ambos deixam a salinha pintada de um verde já descascando, mobiliada com uma mesa velha, duas cadeiras, um arquivo caindo aos pedaços e um computador obsoleto, que quase nunca é ligado. Sobre a mesa uma caixa de entrada e saída entulhada de papéis de um lado, e o telefone do outro. No centro, em pé como uma sentinela do final dos tempos, está o pequeno gravador Sony.

E ele permanece ali, com manchas de sangue em sua caixa plástica, mudo, encerrando em suas entranhas a história de vida e morte de um certo pistoleiro, de nome Romeu dos Anjos.

Epílogo

A garota caminha sem rumo pelas ruas da cidade de São José dos Campos. Está suja, despenteada e tem sangue seco nos cabelos louros. Vestida com um conjunto de moletom e tênis, ela passa despercebida entre as pessoas que seguem apressadas de um lugar para outro, a maioria delas também sem saber onde quer chegar.

Sua cabeça dói bastante, a visão do olho esquerdo está um pouco embaçada, e ela não se lembra como veio parar ali (onde quer que ali fosse). Ela nem sabe o próprio nome, muito menos a cidade em que está. Ela tenta desesperadamente se lembrar de alguma coisa – qualquer coisa, mas nada vem. Ela continua andando, desmemoriada e com medo. De que ela tem medo também lhe foge a compreensão, mas ela o sente assim mesmo. O medo deixa um gosto metálico em sua boca.

De repente a garota se lembra de que está com sede. Ao passar diante de um posto de gasolina, enfia a cabeça dolorida debaixo de uma torneira que encontra e bebe a água abençoadamente fria em grandes goles. Engasga e tosse, a água saindo pelas narinas. Depois enfia a cabeça inteira sob a torneira e lava aquela sujeira dos cabelos. A água que escorre para o ralo é marrom-avermelhada.

Com os cabelos colados à cabeça e a blusa encharcada ela parte, parecendo um tanto amalucada. Caminha até os pés doerem. Entra em um parque e se deita em um banco de concreto, adormecendo em seguida. Um casal de idosos que passa por ali olha para ela, balança a cabeça em desaprovação e segue em frente, em um passo lento e doloroso de artríticos.

Daniele Galante Fonseca dorme um sono profundo como a morte, povoado de pesadelos. Ao redor dela um cesto de lixo começa a levitar, assim como algumas pedras. A trinta metros dali, o marca-passo do velho que passara por ela para de funcionar, e o homem cai fulminado no chão, enquanto sua viúva grita por socorro, inutilmente. Os taxistas de um ponto ao lado do parque de repente passam a captar somente estática em seus rádios.

A garota emite uma única palavra - Não! – e o cesto e as pedras são lançados a centenas de metros de distância. Os rádios dos taxistas emitem um grito doloroso – CRAAAAACK – e fundem seus transistores.

Um esquilo sai de sua toca em uma árvore próxima e vem sondar a visitante. Não encontrando nada de interessante escala o tronco de volta com rapidez, e desaparece entre as folhagens.

Daniele continua a dormir, totalmente alheia a quem ou ao o que é.

Um comentário:

  1. PARABENS CLÉSSIUS, LI TODA A ESTÓRIA. É ENVOLVENTE, GOSTOSA, A GENTE NÃO CONSEGUE PARAR DE LER. GOSTEI MUITO MESMO.
    VAGNER TST45

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